Atualizado: Fev 23

A performance de Beyoncé no Grammy Awards 2017 trouxe muito mais reflexões do que o esperado. A trajetória dessa cantora, além de construir seu legado, vem consolidando importantes aprendizados e lições para as novas gerações. A bandeira que Beyoncé vem levantando, utilizando-se de sua influência global, vem se tornando forte e notável.


Após “revelar-se” negra no álbum visual, Beyoncé revela-se mulher. Embora tenha trabalhado sua sensualidade e poder feminino a carreira toda, e ter curtido sua primeira maternidade em 2011/2012, ela agora mergulha no conceito do sagrado feminino.

Como uma Virgem Maria (nada mais justo, uma vez que já foi diva, rainha, agora só resta ser deusa), ela expõe um barrigão e faz uma performance inteira cultuando o que uma vez, num passado distante, antes desse câncer chamado patriarcado instaurar-se e deturpar nossas mentes, já havia sido considerado divino: o poder da mulher de gerar vida. Falar de uma artista tão completa e perfeccionista como a Beyoncé é difícil, pois cada um pode interpretar suas apresentações de uma forma diferente.


Com foco em Oxum, Orixá da fertilidade e do amor, Beyoncé pede por proteção, já que a deusa africana é também a protetora das gestantes. Ela que sofreu aborto espontâneo antes de conceber Blue Ivy, hoje encontra-se grávida de gêmeos e está partilhando dessa gratidão.


Ao mesmo tempo em que retrata uma ancestral divinizada africana, Beyoncé com adorno na cabeça lembra as santas católicas, fazendo referência a Nossa Senhora Aparecida, que em religiões afrodescendentes é representada por Oxum.

Enquanto os visuais exibem Beyoncé com uma auréola e mulheres se aproximam, é narrado “Sua mãe é uma mulher e mulheres como ela não podem ser contidas”, fazendo relação com os dizeres incontida e devoção no vestido dela, mencionando que assim como a mãe Tina, Beyoncé também é devota e poderosa, capaz de reunir várias mulheres empoderadas, retratando a força e união do sexo feminino.

Ainda sobre o vestido, no centro da barriga há um medalhão com o retrato formado à semelhança de Beyoncé, acompanhada por dois querubins vestidos com uma planta trepadeira, chamada ivy, em inglês. Então, sim, basicamente é um retrato da família bordado na frente do vestido.

Além disso, Peter Dundas, o estilista, inspirou-se nas criações simbolistas do pintor austríaco Gustav Klimt e nos motivos art déco do francês Erté.

A santa ceia também foi retratada na performance, mas diferente de tudo que já vimos, ela foi composta integralmente por mulheres, trazendo a questão do feminismo à tona em mais um trabalho.

Portanto, concluímos que o sincretismo se faz presente nessa apresentação. É por essas e outras que Beyoncé é tão completa e considerada a mais influente da atualidade. Não trata-se apenas de uma apresentação, é A apresentação. E quanto mais a gente procura, mais a gente encontra. Ela consegue trabalhar a semiótica como ninguém mais.


Numa análise histórica, a mulher foi uma vez cultuada, sendo considerada imagem divina, até que surge o patriarcado e transforma a mulher em algo subjugado, bem como a gravidez uma fraqueza, algo a se envergonhar; prova disso é hoje em dia quererem pagar menos a uma mulher por ela engravidar, e por isso “produzir menos” ou ainda a ridícula lei que tramita no Congresso Nacional que proíbe a amamentação em público, em nome do pudor social.


Ignorando a cobrança por artistas padronizadas, hiperssexualizadas, que cativem o público com seu rebolado (o que ela faz e muito bem), Beyoncé simplesmente cantou e mostrou o quão dona do seu corpo e de si mesma ela é. Sem vergonha por ter um barrigão, sem pudor de suas novas curvas, Beyoncé pisa naquilo que o machismo, principal ferramenta do sistema patriarcal, vem construindo nos últimos milênios.


Pois é, por descuido ou menosprezo do sistema opressor, permitiu-se que uma das maiores artistas de nossa geração fosse uma mulher negra. Agora, a principal consequência disso será sentida pela estrutura: o empoderamento das massas! Bom saber que temos na praça artistas que, além de nos entreter, problematizam e trazem ensinamentos para as novas gerações. Que mais pessoas se abram para esse novo evangelho. Amém, santa Beyoncé!

Esse texto teve colaboração de Ian Melo e Taís Santos.

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Recentemente, Myles E. Johnson escreveu uma matéria com o título “O que a Beyoncé ganhou foi maior que um Grammy” na sessão de opiniões no jornal mais importante do mundo, The New York Times, e como forma de agradecimento, Beyoncé o enviou flores.

Confira nossa tradução deste maravilhoso artigo a seguir:


Os negros têm grande imaginação, não apenas nas artes, mas na vida cotidiana. Nós nos imaginávamos como família, quando fomos tratados como propriedade. Imaginamos equidade e liberdade, quando raramente experimentamos isso. Imaginamos um Deus generoso e amoroso quando, muitas vezes, parece que existe um Deus que não ama as pessoas negras tanto quanto nós o amamos nas manhãs de domingo. Em sua performance no Grammy, que teve pessoas em todo o país falando disso a noite toda de domingo e segunda-feira, Beyoncé mostrou sua imaginação. Ela se apropriou das imagens europeias da Virgem e conjurou outras imagens de Orixás africanos como Oxum. Ela comemorou sua gravidez e reuniu inúmeras mulheres negras no palco com poemas de Warsan Shire que preenchiam o ar. A performance terminou com muitas mãos negras saudando Beyoncé, enquanto ela sorria para a câmera como uma Mona Lisa negra. Não era apenas o sorriso de uma artista satisfeita, mas o sorriso de alguém que sabia que tinha acabado de ganhar.

Quando o Grammy de Álbum do Ano foi concedido a Adele, fiquei surpreso que tantas pessoas ficaram desapontadas. Pensei em minha mãe que me falava inúmeras vezes que eu deveria trabalhar duro duas vezes mais para conseguir metade do que um branco receberia. Pensei nas observações francas de Beyoncé sobre perder o show popular de competição de talentos Star Search, que poderia ter dado a ela seu estrelato mainstream quando ela ainda era uma criança. “Você pode realmente trabalhar super duro e dar tudo o que você tem, e perder. Foi a melhor mensagem para mim”, disse ela. “A realidade é que, às vezes, você perde. E você nunca é bom demais para perder. Você nunca é grande demais para perder. Você nunca é inteligente demais para perder. Acontece e acontece quando precisa acontecer.”

Os negros que fazem trabalhos transgressivos ou radicais devem redefinir e re-imaginar o que é ganhar numa cultura capitalista de supremacia branca. A indústria da música é largamente dirigida por homens brancos, e são eles que decidem quais artistas, gêneros e tópicos devem ser validados e financiados e, quais devem ser apagados ou alterados. Trabalho que recebe financiamento e apoio é muitas vezes trabalho que atende uma audiência branca. Se você criar um trabalho que não se atenta a isso, você não está simplesmente criando um produto arriscado, você está se posicionando como um oponente às instituições brancas e aos modelos de negócios.

Se você é uma pessoa negra que não tenta ser palatável para uma audiência branca, mas ao invés disso se concentra na própria cultura e experiência, isso é visto como um ato transgressivo. Se você é uma mulher que não tenta fazer um trabalho que é atraente para o público masculino, isso também é visto como um ato transgressivo. Ser premiado por sua arte é legal, mas quando você centra pensamentos femininos negros e estética radicais como Beyoncé fez com Lemonade, você não vai ser recompensado pelo mesmo sistema que você está subvertendo.

Lemonade não traduziu feminilidade negra para uma audiência branca. Lemonade contou uma história sobre uma mulher negra a outras mulheres negras, e não explicou essas experiências para deixar pessoas brancas mais confortáveis. Historicamente, a brancura não recompensa a provocação negra. Certamente sabemos que uma cultura que esqueceu Zora Neale Hurston, até que Alice Walker a devolveu a glória em seu trabalho, não recompensaria Beyoncé. A cultura americana tem castigado os negros que fazem um trabalho que explora as narrativas negras sem considerar o olhar de um consumidor branco. Certamente sabemos que uma cultura que esqueceu a diretora Julie Dash (Daughters of the Dust), antes de Beyoncé preservar suas imagens em Lemonade, não recompensaria Beyoncé.

E eu suspeito que nós sabemos que uma pessoa negra radical nunca será recompensada se houver opções mais seguras, mais brancas, mais apolíticas. Beyoncé não perdeu; ela foi punida por uma imaginação feminista negra radical que era mais do que os brancos na indústria da música conseguiriam lidar, ou estavam interessados em consumir. Ela não iria receber um prêmio por um álbum que os jurados brancos do Grammy não poderiam cantar junto.

Momentos após o término do Grammy, DJ Khaled lançou uma música chamada “Shining”, com participações de Beyoncé e Jay-Z. Nela, Beyoncé canta, “Tudo isso ganhando. Eu estive perdendo a cabeça.” Ouvindo essas palavras, lembro-me do discurso de Beyoncé para o prêmio de Melhor Álbum Urbano Contemporâneo, entregue muito antes do Álbum do Ano ter sido anunciado. Foi um discurso que Beyoncé provavelmente teria guardado se acreditasse que tinha alguma chance de lutar para ganhar o maior prêmio da noite. Foi um discurso que foi lido como a tese final do Lemonade, e como um comentário sociopolítico sobre sua intenção artística e o status do mundo.

“Minha intenção para o filme e álbum era criar um corpo de trabalho que daria voz para sua dor, nossas lutas, nossas trevas e nossa história”, disse ela. “É importante pra mim mostrar imagens aos meus filhos que refletem sua beleza, para que eles possam crescer em um mundo onde eles se olham no espelho, primeiro através da própria família — bem como no noticiário, no Super Bowl, nas Olimpíadas, na Casa Branca e no Grammys — e vejam a si mesmos.” Beyoncé leu estas palavras e sorriu. Ela sabia como essas coisas funcionam. Talvez ela já tivesse reimaginado ter ganho para si mesma como uma mulher negra. Talvez ela soubesse que a vitória estava no fato de que quando todos os olhos estavam voltados pra ela, ela decidiu não tornar-se mais palatável para os espectadores brancos. Em vez disso, ela deixou sua imaginação servir seus objetivos, sua filha e sua comunidade.

Ao fazer isso, ela mudou a vida de inúmeros espectadores negros e subverteu uma tradição há muito tempo dominada por executivos brancos e gosto branco. Essa é uma vitória que não se coloca em uma prateleira. É uma vitória que uma artista pode desfrutar pelo resto de sua carreira, sabendo que sua arte mudou o mundo.

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Hoje é dia de celebrar os melhores na indústria musical. Como a maioria dos outros grandes eventos de música, o Grammy Awards é sobre uma narrativa geral, porém, nesta edição, nenhuma outra categoria recebe tanta expectativa quanto o Álbum do Ano. A internet fervilha de palpites, fanbases umas contra às outras, alguns que se sentem especialistas em composições, samples, engenharia de som etc...

Essa será a primeira aparição pública de Beyoncé após o anúncio da gravidez. E de acordo com a Billboard, quando um artista realiza uma performance, as chances de ser manchete nos jornais no dia seguinte são enormes.


Mas a Billboard quer saber: Qual lembrança Beyoncé deixará para a Academia e para o público? O que significa se ela vencer a categoria Álbum do Ano?


É tempo de mudanças. Beyoncé foi indicada três vezes para Álbum do Ano, antes de perder o prêmio para Taylor Swift em 2010 (um tanto infame) e Beck em 2015. Mas tudo pode mudar neste domingo porque Beyoncé têm os críticos ao seu lado. Ela foi aclamada unanimemente com o lançamento do visual-album e, agora com o #Lemonade, conquistando impressionantes números de vendas e arrecadações.


Claro que esses números não se aproximam de 25, mas enquanto Adele é a garota que faz sucesso tradicional, Beyoncé é a cara do progressismo para o GRAMMYs. #Lemonade é, sem dúvidas, o álbum que tem a mensagem mais explícita entre os nomeados para o AOTY. É também a sonorização mais aventureira. Um voto para a Queen Bey será um voto para a modernização do Grammy — e talvez um voto para um maior ativismo em geral, como alguns insiders especularam que o sentimento anti-Trump vai estimular a Academia a se inclinar para o #Lemonade por razões políticas.

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